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A PEQUENA E A GRANDE EXISTÊNCIA

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A grande existência vive em semelhante condição que a pequena existência, na natureza. Ser grande ou ser pequena não significa , todavia, o tamanho físico da existência. A existência animal, por exemplo, caça suas presas, por vezes maiores que ela em tamanho, embora menor em força para resistir a luta pela vida. Em outras situações naturais pequenas existências são capazes de vencer as grandes. Na natureza, ou seja, para além da sociedade, a pequena e a grande existência vivem em pé de igualdade na medida em que cada uma não impede a liberdade da outra. Digo isso porque os gaviões, as cobras, os leões não atacam o que não comem, nem cerceiam sua caça até a hora de terem fome. Não são, portanto, sedentários como o homem.

O bicho humano já pouco ou quase nada caça, pois seu sustento é em geral industrializado. A única caça que o ser humano atualmente se entrega, embora sem a coragem de outrora, é pelo menor preço da comida. Além do que, o bicho homem cultiva costumes bizarros. Um deste é o de privar da liberdade as pequenas existências, cerceando-as em pequenos espaços. Não para comê-las, nem para se protegê-las – ainda que digam isso -, mas apenas para sobrepujá-las, como de alguma maneira eles são. Os seres humanos, estes seres estúpidos, quando bons cristãos, querem ter um pedaço de Deus num cativeiro. E assim esperam ter dele uma benção.

Um belíssimo papagaio, que poderia revelar sua beleza em liberdade só aos olhos do observador observador da natureza mais atento e interessado, torna-se uma coisa banal, acessório qualquer de um conjunto de futilidades que se somam a sua vida mesquinha. Cortam sua asas para que não voe – tomando o cuidado de deixar que um profissional o faça – então acorrentam-no com uma pequena algema ou o aprisionam numa gaiola.

Parvo, o bicho homem crê que desta forma está na verdade livrando a pequena existência de todo o mal que há lá fora alimentando-o, aquecendo-o, acariciando-o. O ser humano incapaz de exercer sua própria liberdade faz da pequena existência seu reflexo. E ainda que esta pequena existência não seja humano, pretendem despoticamente humanizá-la. Estes sujeitos atoleimados são incapazes de manter relações humanas de solidariedade ou fazem de um ato aparentemente solidário uma satisfação para o seu ego. Individualistas, buscam a satisfação que se negam a buscar no outro, pois o outro não é seu espelho, o que o constrange e o desanima. Então prefere pela expropriação da liberdade de um ser nascido livre. O humano de ímpeto esclavagista sabe, como bom idiota que é, que pode sempre ter um amigo. E o que é um amigo para ele: alguém que o obedeça - se não o faz é surrado - , alguém que não lhe nega nada – ou pode ser fustigado - , que não o critique e o aceito por completo. Enfim, alguém que tolere sua existência estupida, individualista e miserável.

Eis aí o homem que se auto proclama “dono”. Dono do que não é seu. O animal, agita-se no cativeiro, deprime-se, aquieta-se. O engaiolador de vidas pensa estupidamente ser em razão da presença ou ausência do dono tão amado. Contudo sabemos que um pássaro engaiolado se põe a bater suas asas para o céu sem olhar para trás na primeira oportunidade dada a ele de fugir (quando não tem sua asas cortadas). É por isso que dizer que o outro é “tratado como um animal”, ou que “se vive como um cão” mantém o seu significado metafórico original. Ainda que aqui me refira diretamente ao cerceamento da liberdade animal não é preciso dizer que a luta entre a pequena e a grande existência também se refere ao ser humano.

 

 

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