No mundo ideal somos todos peças de uma engrenagem, cada qual com sua função, maior ou menor , contudo importante em igual teor. Qualquer peça fora do lugar é o suficiente para que se comprometa toda a engrenagem. Seja uma pequena ruela ou porca, se fora da engrenagem, comprometerá todo o movimento da grande máquina. Portanto, somos todos importantes, temos o mesmo valor, cada qual na sua função é fundamental para a organização do trabalho e da sociedade como um todo. Mas este é um argumento mecanicista utilizado, em geral, pelo patrão, a grande roldana da engrenagem, para desarmar os pequenos, torná-los dóceis e orgulhosos de si.
No mundo real, as pessoas e a sociedade possuem valores. Valores morais, éticos, valores nobres, mas também valores banais, representativos da miséria humana. Embora a engrenagem necessite de todos, só se valoriza os que estão no topo da engrenagem, as roldanas e correias de maior corpo, que de tão grandes produzem o som da máquina, emudecendo as menores peças. No mundo real, os menores são invisíveis, embora saibamos que se um dia o lixeiro não vier, o varredor ignorar seu serviço, o carteiro desaparecer, o caos se fará na terra em proporções grandiosas.
Mas no mundo real a invisibilidade é a regra. Rechaçado, excluído, reprimido, ignorado, reduzido a um quase nada, o pequeno trabalhador é pequeno em tudo. Sua fome é pequena, por isso merece um comida menor. Seu cansaço é pequeno, por isso o lugar de descanso é duro e seco. Sua sede é pouca, por isso sua água não precisa ser gelada. Sua responsabilidade é insignificante, por isso seu salário é insignificante. Aos pequenos estão reservados os pequenos espaços, em espaços pequenos, junto aos seus: os pequenos. Lembremos que entre os pequenos tanto quanto entre os grandes existem os estúpidos e inteligentes.
Mas que empresa logrará êxito neste mundo sem os pequenos trabalhadores? Vos digo: nenhuma!
Alexandre, o pequeno.