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AOS DESTERRADOS

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Decerto que Desterro desterrou muita gente. Desterrou primeiro os índios, depois a natureza para fazer o pasto e a plantação. Desterro desterra agora aos poucos os desterrenses açorianos que antes desterraram os “meinbipenses”. Desterro anda desterrando até o que não é terra. Desterrou o mar para o aterro. E no mar que não virou aterro, desterram os peixes e toda a vida marinha enterrando merda onde deveria brotar vida.

A proclamada desteridade das autoridades não provou ainda sua validade. O que fazem, e sem dúvida com destreza, é desterneirar os desterrenses. Separam as crias - pobres desterrados condenados a serem criados - dos que criam, as gordas vacas suíças. O desterrado, alienado da terra, é condenado a servir o desterrador. E assim o desterrense é aos poucos lançado ao degredo de uma Desterro degradada.

Mas o próprio desterrense também se desterra. Gerações de filhos de pescadores e pequenos agricultores desterrenses desterram-se aos poucos da tradição na busca do que acreditam ser um terreno seguro. Terras de Desterro, que lhe foram herdadas ao longo de gerações, aterram-se para que se ergam casarões ostensivos. Ternamente a terra parte. Internamente ela é partida. O desterrense desterra-se e subdesterra-se. Muitos afundam no que pensavam ser o solo firme do capitalismo e se enterram na miséria, enquanto os muros abundam. O vento terral já não se sente como se sentia a tempos atrás, antes de haver muralhas de concreto que hoje o interrompem.

A viciosa Desterro se (des)configura assim: desterrenses desterram desterrenses que por sua vez são desterrados pelo capital que por sua vez o desterram de si e do outro. Enquanto isso nossa ilha Desterro vai virando um grande aterro. E a ambiciosa ínsula um dia vira península.

 

Alexandre, O Pequeno

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