O PENETRA E OS ESPAÇOS SOCIAIS
por Tia Neura
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O penetra traz alegria ao folguedo. Chega chegando de mansinho, geralmente a pé. Pode pegar um taxi quando dispõe de recursos. Eventualmente usa terno, sapatos caros, luxuosos, pode mesmo ser amigo de alguém da festa, o que não é raro. O penetra preenche espaços vazios - onde ele penetra. Ele substitui àqueles que faltaram ao folguedo, os ausentes, os que não lembraram ou ignoraram o convite, ou simplesmente já não são mais amigos do conviva e não lhe comunicaram. O penetra traz alegria e promove a abundância, pode dar conselhos, quiçá mudar a vida de alguém.
O sentimento do penetra é, em geral, o de conseguir penetrar em ambiente seleto e beber e comer o máximo possível, de preferência coisas deliciosas. Pode fazer amigos - o penetra é um hábil fazedor de amigos - e gostar de relações sociais, mas o seu principal foco será sempre a bebida e a comida, especialmente a bebida. Quanta alegria explode em seu coração quando em um minuto não tem nada para beber ou comer e no segundo seguinte, quando trespassa os seguranças e porteiros, surgir vitorioso e renascido em um ambiente que lhe nutre com abundância através de bebidas e comidinhas diversas. Não é olho grande, atinge o ápice do prazer em festas que tenham o básico: uísque, champanhe e cerveja. Não é necessário água.
A comida exige mais apuro e atenção. Não valeria o esforço para comer um simples frango, não corre riscos à toa. Tem de valer a pena, as refeições devem ser caras e raras. Filé mignon cai muito bem, salmão sempre é bem vindo, camarão nunca é demais, mariscos e lulas, sempre valem a pena, e quando surge uma oliveira, come sempre o máximo possível. A louça é outro detalhe importante que o penetra observa com apuro, ao passo que ela acompanha a comida. Não haver talheres de inox é um insulto ao penetra. Os talheres e as louças antecipam o que vem pela frente, o penetra constata facilmente que se a louça for uma porcaria a comida será no mínimo sem tempero. Os pratos tem de ser grandes, não devem ser simples pratos, afinal todos devem comer e beber fartamente, especialmente o nosso herói, o penetra. As sobremesas são observadas com atenção, já logo no início, antes mesmo da janta ser anunciada, desta forma o penetra passa a curtir a sobremesa visualmente e lembrar-se dela até o momento da degustação. Muitos optam por comer mais sobremesa do que a refeição principal, não existem regras estabelecidas quanto à isso, o cardápio do penetra é livre, dentro de suas possibilidades. Refeição realizada, bebe o máximo possível.
As relações sociais são outro ponto interessante na saga do penetra. Não é raro relacionar-se muito bem com todos àqueles que estão nos bastidores do folguedo, os garçons, motoristas, faxineiras. Esta gama de relações faz o penetra extrair uma vantagem extra e quiçá amizades verdadeiras. O primeiro contato geralmente ocorre nos fundos do salão de festa, através do tradicional cigarrinho. Quando o penetra não possui recursos para comprar seu próprio cigarro, recorre aos bastidores: é sempre bem recebido e consegue fumar com calma e tranquilidade e retornar ao folguedo renovado. Não é raro repetir este procedimento a noite inteira.
Deve-se receber o penetra de forma sutil, deve-se vê-lo, mas não incomodá-lo, pedir maiores informações, mas sim servi-lo fartamente. Não deve-se em hipótese alguma cobrar mas deixá-lo livre e à vontade, afinal, o penetra é àquele amigo que não veio à festa, aquele que prenche um espaço que não é apenas físico, mas psicológico, nele é retratado o amigo que não veio, àquele amigo que está muito longe e nem mesmo lembra do patrono. Pode ocorrer o fenômeno - raro - de ninguém aparecer na festa, pode ser festa de aniversário ou natal, e quando isto ocorre, a festa torna-se uma festa de penetras. Diz a lenda que o ser que viver este ocaso sentirá algo totalmente novo: o de não conhecer ninguém em sua própria festa. Mas isto não há de diminuir a alegria ou reduzir a duração do folguedo, pelo contrário: corre-se o risco de prolongar-se demais.
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