MEIEMBIPE, DESTERRO, FLORIANÓPOLIS
A Cruz de Souza
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Alguns dos meus leitores já devem ter notado a minha preferência pelo nome Desterro ao me referir a nossa ilha da magia. Percebeu o leitor como me abstenho ao máximo em pronunciar o nome menos oficial do que oficioso desta ilha. Assumo que esta preferência é deliberada. O conhecedor de nossa história deve suspeitar da razão dessa minha deliberação. Ora, o nome oficial e atual da ínsula catarinense – prefiro omiti-lo – é maculado pelo sangue de dezenas de pessoas vítimas da atuação ditatorial do marechal que deu nome a esta ilha quando oprimiu a revolução federalista iniciada no Rio Grande do Sul. Revolução esta que, se tivesse terminada com sucesso por parte dos revolucionários, teria nos levado a um rumo muito diferente do Estado brasileiro e catarinense. Talvez um rumo democrática e menos oligárquica do que acabou por viver o Brasil após a consolidação da república. Haviam na revolução federalista ideais nobres e a paixão de revolucionários nascida no seio do povo. Ergueram-se heroicamente contra a tirania. Mas foram miseravelmente exterminados pelo poder oligárquico, deixando 10.000 mortos. Contudo não me esquivo em afirmar que também os revolucionários representavam uma oligarquia.
Poderão os leitores inteligentes me questionarem argumentando que o nome Desterro também foi erguido com sangue. Concordo e explico: sangue dos índios pela conquista das terras que eram destes a muito tempo. No entanto este nome não presta homenagem a nenhum indivíduo sanguinolento. Não preserva a figura de um sujeito homicida. Desterro faz referência simplesmente a ilha. Significa pedaço de terra desterrada do continente. Nesse sentido pelo menos não somos obrigados a carregar a memória de um passado infame e sanguinário pela luta mesquinha - tanto por parte dos reacionários quanto por parte dos revolucionários - pelo poder oligárquico.
Ainda o leitor mais perspicaz poderá perguntar porque então não faço uso do nome que os índios batizaram esta ilha, qual seja, Meiembipe. Esta ilha foi talvez durante milhares de anos povoada por índios e só deixou como lembrança os sambaquis e hieróglifos de datações muito antigas. Os únicos índios que hoje vemos por aqui vivem do artesanato e não são originários da ilha., pertencem à comunidades indígenas continentais. Se não uso o nome Meiembipe é por considerar verdadeira hipocrisia fazer uso de um nome cuja língua foi banida juntamente com seus falantes por uma sociedade que, quer goste quer não, é a que nós pertencemos e somos herdeiros. Que se diga ao leitor que não nego a história deste povo, o indígena. O que nego e reprovo são ações etnocentristas e procuro fazer de minha vida algo de contra a tudo. Do índios procuro louvar os seus valores de harmonia com a natureza. Não restam mais índios ilhéus, mas ficam seus valores nobres e estes eu louvo e prescrevo numa época de grande necessidade. Época em que nossa ilha definha em nome do progresso dos valores ocidentais que nos atravessam. Salve Desterro!
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