ENSAIO SOBRE A ORELHA
A Cruz de Souza
15-05-2011
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Afligi-me saber que quando na ancianidade tornar-me-ei orelhudo. Por enquanto, por conta do privilégio hereditário vivo a satisfação de ter, como tantos, um par de orelhas médias. Venho tentando superar desde a infância uma série de complexos psicológicos que a sociedade com seus valores ideais nos imputam e já me considerava bastante satisfeito, ainda que não totalmente descomplexado, para seguir até a próxima etapa da vida com maior segurança quanto a minha aparência. Mas eis que no meu ocaso, na velhice do meu tempo, quando imaginaria ter alcançado todo o respeito e a admiração de alguém muito vivido e experiente, terei então que passar por tão brutal mudança física.
Não ignoro e sinceramente lamento que os sujeitos nascidos com uma orelha grande serão sempre muitíssimos mais infelizes que os de orelhas médias já que quando idosos aqueles terão orelhas deveras grandiosas, assustadoramente bestiais.
E rirão sempre melhor, porque por último, os sujeitos de pequenas orelhas. Ainda que tenham passado a vida descontentes com a desproporcionalidade de suas orelhas em relação ao restante do corpo e por isso sempre as escondendo sob capuzes e cabelos compridos, por fim reinarão no reino dos velhos de orelhas medianas. Claro é que o destino de alguém dotado de pequenas orelhas será, quando maduro, tê-las médias. E como nunca em suas lastimáveis vidas de orelhas ocultas notarão e exibirão com orgulho suas agora perfeitas orelhas medianas.
Mas nós, os sujeitos natos de orelhas médias, seremos tão infelizes na velhice! Tão mais quanto for o crescimento de nossas orelhas, outrora de áurea proporção e exibida aos quatro cantos displicentemente. Observaremos a cada ano da velhice e mediremos com temor o crescimento constatado. Choraremos as lágrimas de um corpo que insiste em nos afirmar, como uma vanitas, que a vida é movimento e que a permanência é só um conceito e nada mais.
Antes, porém, choro as grandes orelhas que terei e assim espero apaziguar o desgosto futuro de ser o que nunca fui: um orelhudo.
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