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O DESERMAMENTO SUBJETIVO
A Cruz de Souza

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Consta em nossa língua uma variedade de fórmulas para se dirigir ao outro de modo cortês. Entre estas fórmulas incluem-se saudações como um curto “oi” ou um “boa tarde”; palavras de gratidão como “obrigado” e palavras atenuantes tal qual uma desculpa ou pêsame. Tais fórmulas floreiam por assim dizer o que se quer comunicar de modo que o receptor se torna, digamos, mais receptivo. No senso comum costuma-se chamar este arcabouço de cortesias como “educação”. Esta “educação” se distingue da educação formal e independe desta para se desenvolver, pois é só na prática que aquela educação faz sentido.

Porém, há quem defenda que estas palavras já se tornaram por demais convencionais, desgastadas pelo uso, e portanto sem qualquer eficácia. São termos engessados que perderam sua significação moral. Esvaziados de seu significado original pelo tempo, servem apenas ao interesse de manipuladores. As pessoas que assim pensam preferem não fazer uso destas palavras e resistem para não reagirem à elas. Para defender esta posição e mascarar sua arrogância e prepotência, o “mau-educado” argumenta por exemplo, que uma saudação do tipo “boa tarde” nem sempre é bem colocada pois nem sempre é uma boa tarde para aquele a quem se dirige.

Ainda assim eu defendo o uso das fórmulas de cortesia. E digo o porque. Termos convencionais da língua para se dirigirem ao outro com educação tem a vantagem e o mérito de inverter atitudes antipáticas em atitudes simpáticas. Ainda que por vezes falhe por conta de espíritos mesquinhos e miseráveis que sempre existirão. A educação, no sentido que escrevo aqui, desarma.
O modo cortês de se dirigir ao outro ou a dita “educação” tem ainda nos dias de hoje grande utilidade. Uma palavra de educação é sempre cabível e se mau colocada existe sempre uma substituta que se adapta melhor a situação.

Mesmo o cumprimento pode ser comparado a um agradecimento, ou seja, é um modo cortês. O cumprimento não é uma comunicação por si só como alguns pensam. O cumprimento ou saudação é um modo cortês de se dirigir ao outro pois o que se quer comunicar é o reconhecimento do outro. Mas o reconhecimento não requer palavra, no entanto a palavra evoca o meu reconhecimento do outro para o outro. Dá ao outro visibilidade e o informa disso através da palavra. Portante é um modo cortês de reconhecer o outro. O que acaba por desarmá-lo por conta do orgulho que o outro tem de ter sido reconhecido.

Porém nem tudo é aceitável no que se diz como modo “educado” de tratar o outro. Rechaço como modo cortês os pronomes de tratamento como “Doutor”, “Patrão” e “Chefe”. Não só porque não sou doutor, não sou patrão e muito menos chefe de ninguém mas também porque estes pronomes evocam a situação de servilismo das pessoas que os usam e ajudam a sedimentar o conformismo e a resignação destas. Aviso que não desconsidero a dignidade do trabalho destas pessoas, apenas defendo a plena liberdade. Além do que o servilismo alimenta uma sociedade hipocritamente hierarquizada. Aceitar estes pronomes reforça a miserável condição de alienação dessas pessoas. Sejamos corteses então.

 

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